Avançar para o conteúdo principal

Cacauzinha: mais do que um animal, parte da Família — porque Portugal precisa reforçar os direitos e a proteção dos nossos companheiros de quatro patas

 

Cacauzinha: mais do que um animal, parte da Família — porque Portugal precisa reforçar os direitos e a proteção dos nossos companheiros de quatro patas


 

                                                                                                                                                      Por: Joana Capaz Coelho

No ano passado, despedimo-nos da Cacau, a nossa cadelinha e companheira de tantos anos.

A nossa Cacau era pequenina, quentinha e cheia de vida — adorava dar beijinhos, festinhas e enroscar-se no colo de quem estivesse por perto. Temos muitas saudades dela e só podemos agradecer pelos 11 anos de muito amor.

 A sua ausência deixou um vazio difícil de descrever. Quem tem um animal sabe: eles não são “bens” nem “posses”. São, verdadeiramente, Família.

E, tal como acontece com qualquer membro da Família, a sua partida desencadeia um processo de luto profundo. O luto animal é uma realidade emocional reconhecida por psicólogos e por milhares de Famílias que vivem esta perda, mas em Portugal continua praticamente invisível no plano legal e nas políticas públicas.

Não existe, hoje, qualquer legislação que reconheça formalmente este processo, que preveja apoio ou que enquadre direitos laborais mínimos — como faltas justificadas — para quem enfrenta a perda de um animal de companhia. Esta ausência contribui para que muitos vivam o seu luto em silêncio, sem compreensão social e sem apoios adequados.

A perda da Cacau fez-nos refletir sobre como, em Portugal, ainda há um longo caminho a percorrer para que os animais sejam tratados com a dignidade e a proteção que merecem — não apenas no coração, mas também na lei e nas políticas públicas.

Nos últimos anos, Portugal deu passos importantes nesta matéria. Desde 2017, o Código Civil passou a considerar os animais «seres vivos dotados de sensibilidade», com aditamentos introduzidos pela Lei n.º 8/2017, de 3 de março, que acrescentou os artigos 201.º-B e 201.º-C e prevê que a proteção jurídica dos animais opere nos termos do próprio Código e da legislação especial.

Esta mudança legal representa um avanço simbólico e ético, mas ainda falta muito para que esse reconhecimento se traduza em direitos efetivos — especialmente quando se trata de acesso a cuidados de saúde, seguros veterinários e proteção contra abandono e maus-tratos.

No plano penal, a proteção também foi reforçada: o Código Penal criminaliza maus-tratos e mortes injustificadas de animais de companhia (artigo 387.º), estabelecendo penas que variam conforme a gravidade dos factos — uma norma essencial para quem defende que ferir um animal é também um atentado à dignidade que a sociedade deve proteger.

Mas reconhecimento legal e aplicação prática são mundos distintos.  

Quem tem um animal sabe que as despesas veterinárias podem ser elevadas. Consultas, exames, cirurgias e tratamentos prolongados representam um encargo financeiro significativo para muitas famílias. Em Portugal, a atividade médico-veterinária é sujeita a IVA e, atualmente, a prestação de serviços veterinários a animais de companhia é tributada à taxa normal (23%), enquanto a taxa aplicável aos animais de produção é reduzida (6%).

Esta diferença tem sido apontada por profissionais como uma fonte de «discriminação fiscal» entre animais de produção e animais de companhia. A Ordem dos Médicos Veterinários e outras entidades têm vindo a pedir a redução da taxa aplicada aos serviços clínicos, de modo a aliviar o encargo dos tutores e a melhorar o acesso aos cuidados. Além disso, já existem pedidos formais e projetos que propõem a redução do IVA para 6% ou para a taxa intermédia, e o tema esteve em debate público nos últimos meses.

Este contexto fiscal condiciona também o mercado dos seguros de saúde animal. O segmento tem vindo a crescer rapidamente: várias seguradoras em Portugal lançaram novos produtos dedicados a cães e gatos. No entanto, apesar do crescimento, a taxa de penetração dos seguros para animais de companhia continua a ser muito baixa em comparação com outros países europeus.

Deste modo, e apesar dos avanços, o seguro de saúde animal ainda não é uma realidade acessível para a maioria das famílias portuguesas.

Tratar um animal com dignidade não é apenas alimentá-lo ou levá-lo a passear. É reconhecer que a sua vida tem valor intrínseco e que a sua saúde, conforto e segurança devem ser uma prioridade.

Precisamos de mais campanhas de sensibilização, incentivos fiscais à adoção responsável e, acima de tudo, uma mudança cultural: perceber que o amor pelos animais é também uma questão de cidadania e ética coletiva.

A nossa Cacau partiu, mas deixou-me um legado: o dever de continuar a lutar por um país onde nenhum animal seja tratado como descartável, onde o afeto se traduza em proteção real.

Porque quando cuidamos dos animais, estamos também a cuidar da nossa própria humanidade!


Comentários

Mensagens populares deste blogue

A posição adotada pelo Tribunal Constitucional em tempos de crise

  A posição adotada pelo Tribunal Constitucional em tempos de crise Por: Joana Capaz Coelho Introdução O Estado português, em maio de 2011, perante a situação das suas finanças públicas, viu-se impelido, para não entrar em bancarrota, a aceitar um “Programa de Assistência Económica e Financeira”(PAEF) [1] , que teve tradução no memorando de Entendimento estabelecido com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, e implicou a adoção de medidas de austeridade, com cortes na despesa pública (nomeadamente, cortes nas remuneração dos funcionários públicos e cortes nas pensões), e aumento de impostos. Com o presente artigo pretendemos elucidar, pela análise da Jurisprudência do Tribunal Constitucional, ainda que de uma forma necessariamente breve, em que medida é constitucionalmente admissível restringir os direitos económicos e sociais dos cidadãos, os designados direitos fundamentais sociais, em períodos de crise. O artigo inicia-se com uma s...

Uma reflexão sobre o Direito à Liberdade e suas restrições

    Uma reflexã o sobre o Direito à Liberdade e as suas restrições                                                                                                         Por: Sofia  Di Giovine Freire de Andrade Antunes   Todos nascemos livres e iguais, mas, como afirmou George Orwell, na sua Obra “O Triunfo dos Porcos”, “alguns são mais iguais que os outros”. Esta parece ser a realidade em que vivemos, uma vez que, ainda aos dias de hoje, existem desigualdades flagrantes no tratamento de cada pessoa consoante a sua classe social, política, etnia, orientação sexual, género, religião, entre outros fatores. O conceito de liberdade é subvalorizado, porque todos os que vivem em sociedades democráticas consideram...

Ruth Bader Ginsburg: A História de uma verdadeira líder [sobre Igualdade de Género e Direito das Mulheres]

Ruth Bader Ginsburg: A História de uma verdadeira líder [sobre Igualdade de Género e Direito das Mulheres] Por: Joana Capaz Coelho A série documental "Líderes que inspiram”, disponível na plataforma de streaming Netflix, e construída sob o lema de Nelsen Mandela segundo o qual: “O que conta na vida não é o mero facto de termos vivido, mas sim a diferença que fizemos na vida dos outros”, é composta por 7 entrevistas a grandes líderes mundiais. Neste post vamos focarmo-nos na primeira entrevista desta série documental que incide sobre a História de Ruth Bader Ginsburg (doravante Ginsburg) (1993 – 2020) que foi uma jurista, advogada e juíza norte-americana cuja carreira ficou conhecida pela constante luta pela defesa da Igualdade de Género e Direito das Mulheres. Ginsburg, tal como é retratado naquela entrevista, no início da sua carreira teve de enfrentar variados desafios numa América de 1959 onde às mulheres era dificultado o acesso a múltiplas profissões: sendo a Advocaci...

19th June − Introdução

19th June − Introdução Quem sou? O meu nome é Joana Capaz Coelho e sou Advogada, Doutoranda em Direito na Nova School of law (NSL), Mestre em Direito, com especialização em Direito Público, pela Nova School of Law (NSL), Pós-graduada em Direitos Humanos pelo Ius Gentium Conimbrigae/ Centro de Direitos Humanos (IGC/CDH) da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC), Pós - graduada em Concessões e Parcerias Público-Privadas pelo Instituto de Ciências Jurídico-Políticas (IGJP) da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL) e Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa (Escola de Lisboa). Qual a Missão do Blog? No meu Blog pretendo partilhar artigos sobre Direito em geral, Direitos Humanos e Direito Público em particular! Assim sendo, o grande objetivo será debater e refletir sobre temas atuais do Mundo do Direito. Parece entusiasmante, não parece ? Desde 2019, e enquanto PRO BONO SENIOR, tive o privilégio de redigir alguns ar...

PRÉMIO “MARIA JOÃO SEABRA”

PRÉMIO “MARIA JOÃO SEABRA”   REGULAMENTO   Preâmbulo Maria João Seabra foi uma figura notável, nascida a 19 de junho de 1963 e falecida a 26 de maio de 2021, cujo impacto transcendeu gerações. Mãe dedicada de três filhos - Joana, Filipa e Martim - deixou um legado de amor, compromisso e realizações. Em honra à memória e à influência inspiradora de Maria João Seabra , o blog 19thjune foi criado em 19 de junho de 2022, com o propósito singular de celebrar e perpetuar os seus valores, ideais e conquistas. O Prêmio Maria João Seabra é uma iniciativa anual, a ser concedida em 19 de junho, destinada a reconhecer indivíduos que, tal como Maria João Seabra , demonstrem excelência, dedicação e impacto significativo nas suas áreas de atuação, contribuindo assim para um mundo melhor. Este prémio não apenas reconhece a herança deixada por Maria João Seabra , mas também busca incentivar e destacar aqueles que, com empenho e compromisso, seguem o exemplo inspirador por ela es...

REGULAMENTO DO PRÉMIO “MARIA JOÃO SEABRA”

  REGULAMENTO DO PRÉMIO “MARIA JOÃO SEABRA”       Preâmbulo Maria João Seabra foi uma figura notável, nascida a 19 de junho de 1963 e falecida a 26 de maio de 2021, cujo impacto transcendeu gerações. Mãe dedicada de três filhos - Joana, Filipa e Martim - deixou um legado de amor, compromisso e realizações. Em honra à memória e à influência inspiradora de Maria João Seabra , o blog 19thjune foi criado em 19 de junho de 2022, com o propósito singular de celebrar e perpetuar os seus valores, ideais e conquistas. O Prémio Maria João Seabra é uma iniciativa anual, a ser concedida em 19 de junho, destinada a reconhecer indivíduos que, tal como Maria João Seabra , demonstrem excelência, dedicação e impacto significativo nas suas áreas de atuação, contribuindo assim para um mundo melhor. Este prémio não apenas reconhece a herança deixada por Maria João Seabra , mas também busca incentivar e destacar aqueles que, com empenho e compromisso, seguem o exempl...

DIREITO DAS CRIANÇAS: UMA PREOCUPAÇÃO RECENTE?

  DIREITO DAS CRIANÇAS: UMA PREOCUPAÇÃO RECENTE?                                                                                                                                                        Por: Catarina Miguel Fernandes Mendes “ O Superior interesse da criança ” de que regularmente ouvimos falar é a base de qualquer processo de intervenção judiciária (ou não) [1] relacionada com menores. Enquanto criança, pessoa com menos de 18 anos, segundo o Artigo 1.º da Convenção sobre os Direitos da Cria...

Three Years of Blogging, a Lifetime of Affection: The Right to Family as a Place of Belonging

  Three Years of Blogging, a Lifetime of Affection: The Right to Family as a Place of Belonging By Joana Capaz Coelho Today, this blog turns three — on my Mother's birthday. Three years of writing, sharing, and reflecting. Of carefully chosen, hesitant, heartfelt words. Three years of trying to reconcile what drives me in Law with what moves me in life. This text is, therefore, both a celebration and a tribute. A celebration of this space that keeps growing with me — and a tribute to my Mother. Speaking about her is difficult without my voice breaking. Perhaps because it was through her that I first understood — without yet knowing — what the Right to Family means. And I don’t mean the cold letter of the law, but the lived reality of having someone who cares, who welcomes, who stays. Over these three years, I have written about human rights, health, gender equality, and solidarity. But I always return to the same root: the right to have someone. To have someone who supports us, ...

Direito da União Europeia em Matéria de Whistleblowing

  Direito da União Europeia em Matéria de Whistleblowing:                                                      Por :André Alfar Rodrigues ( [1] ) São diversos os diplomas europeus que contêm disposições sobre a proteção dos denunciantes. A Diretiva 2013/30/UE do Parlamento e do Conselho, de 12 de junho de 2015, relativa à segurança das operações offshore de petróleo e gás, referia no considerando (41) que “ para assegurar que nenhumas preocupações de segurança relevantes são negligenciadas ou ignoradas, é importante estabelecer e incentivar métodos adequados para a comunicação confidencial dessas preocupações e proteger os denunciantes ”. A Diretiva foi alterada pelo Regulamento (UE) 2018/1999 do Parlamento Europeu e do Conselho de 11 de dezembro de 2018, passando apenas a fazer menção à proteção dos denunciantes no Anexo IV ( [2] ).  ...

“(Girl) Boss” e igualdade de género: sobre a relevância das CEOs no feminino

  “(Girl) Boss ” e igualdade de género: sobre a relevância das CEOs no feminino                                                                                                                                                                                                            Por: Joana Capaz Coelho Em 2017, a Netflix lançou uma serie designada  “Girl Boss” . Em termos gerais, a serie baseia-se na autobiografia de  Sophia Amoruso , intitulada # G...