Felicidade no trabalho: entre a estratégia empresarial e o dever jurídico de prevenção do burnout
Por: Joana Capaz Coelho
O verão representa, para muitos trabalhadores, um período de
pausa, recuperação física e emocional e reconexão com a vida pessoal. As férias
permitem interromper, ainda que temporariamente, o ritmo intenso do quotidiano
profissional, reduzir os níveis de stress e recuperar energias. Contudo, agora
que setembro marca a retoma plena do ritmo da atividade profissional, importa
questionar se as organizações estão verdadeiramente preparadas para preservar
esse equilíbrio ou se, pelo contrário, reproduzem modelos de trabalho que
rapidamente conduzem à sobrecarga, ao desgaste e ao burnout.
É precisamente neste contexto de retoma da atividade que ganha
particular atualidade a reflexão sobre a felicidade no trabalho. Mais do que um
conceito associado ao bem-estar individual, trata-se hoje de um fator
estratégico para as organizações e de uma dimensão que encontra crescente relevância
no plano jurídico, através dos deveres de proteção da saúde física e mental dos
trabalhadores.
A felicidade no trabalho deixou de ser um conceito abstrato ou
uma preocupação exclusiva dos departamentos de recursos humanos para assumir um
papel estratégico na gestão das organizações. É esta uma das principais
conclusões do estudo “Happiness Works 2026”, divulgado pela Forbes Portugal,
que evidencia uma mudança de paradigma na forma como as empresas encaram o
bem-estar dos seus colaboradores.
Realizado junto de 8.174 profissionais portugueses, distribuídos
por 11 setores de atividade, o estudo atribui à felicidade organizacional um
índice global de 4,0 em 5. Os resultados revelam que as organizações que
promovem ambientes de confiança, propósito e equilíbrio entre a vida
profissional e pessoal encontram-se melhor preparadas para atrair, reter e
desenvolver talento.
Todavia, o estudo demonstra igualmente uma realidade que merece
reflexão. Apesar dos elevados níveis de compromisso e motivação, coexistem
sinais claros de desequilíbrio que as organizações não podem ignorar. Como
salienta Georg Dutschke, cofundador da Happiness Works, este desfasamento entre
o esforço despendido e a recompensa percecionada está associado a riscos
concretos, como o desgaste físico e emocional, a deterioração do bem-estar e o
aumento da intenção de saída dos trabalhadores. Paralelamente, o trabalho deixa
de ser avaliado apenas pelos resultados produzidos, passando também a ser
valorizado pela qualidade da experiência que proporciona a quem o desempenha.
O estudo identifica ainda o propósito como uma das variáveis
mais determinantes da felicidade no trabalho. As organizações que conseguem
alinhar a sua missão com os objetivos pessoais dos colaboradores criam equipas
mais comprometidas, ambientes mais saudáveis e melhores resultados
organizacionais. Mais do que benefícios pontuais ou incentivos salariais, são a
confiança, o reconhecimento, a qualidade da liderança e o sentido de pertença
que se afirmam como verdadeiros fatores de felicidade.
Outro dos aspetos particularmente relevantes destacados pelo
estudo prende-se com a gestão do tempo. Os trabalhadores valorizam, cada vez
mais, a possibilidade de conciliar a vida profissional com a vida pessoal,
atribuindo ao tempo uma importância que, em muitos casos, ultrapassa a
componente remuneratória. Em resposta a esta realidade, muitas organizações têm
vindo a repensar os seus modelos de trabalho, apostando no regime híbrido, em
horários mais flexíveis, na redução de reuniões e tarefas redundantes e, em
alguns casos, na implementação experimental da semana de quatro dias. Como
conclui a Forbes Portugal, o equilíbrio entre vida profissional e pessoal
deixou de ser um benefício para assumir um papel determinante na retenção de
talento e no desempenho organizacional.
O “Happiness Works 2026” evidencia ainda uma mudança de
paradigma particularmente relevante: as organizações mais eficazes deixaram de
encarar a felicidade como um mero resultado emocional dos trabalhadores para a
assumirem como um verdadeiro indicador da qualidade do sistema organizacional.
Nesta perspetiva, o bem-estar deixa de ser um benefício acessório concedido
pela empresa e passa a constituir uma consequência de boas práticas de gestão.
Os dados revelam igualmente que colaboradores mais felizes apresentam menores
níveis de absentismo, menor intenção de abandonar a organização e maiores
índices de produtividade. Num contexto de crescente transformação do mercado de
trabalho, as empresas que conseguem criar ambientes de confiança, propósito e
equilíbrio encontram-se mais bem preparadas para atrair, reter e desenvolver
talento.
Esta evolução encontra igualmente expressão no plano jurídico.
Embora o ordenamento jurídico português não reconheça expressamente um
"direito à felicidade no trabalho", a proteção da saúde e segurança
dos trabalhadores constitui uma dimensão fundamental do Direito do Trabalho.
Desde logo, o artigo 59.º, n.º 1, alínea c), da Constituição da
República Portuguesa consagra o direito de todos os trabalhadores à prestação
do trabalho em condições de higiene, segurança e saúde. Em concretização deste
princípio, o artigo 127.º do Código do Trabalho impõe ao empregador o dever de
proporcionar boas condições de trabalho, tanto do ponto de vista físico como
moral, bem como de adotar medidas destinadas à prevenção dos riscos
profissionais.
Por sua vez, a Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro, que
estabelece o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho,
impõe ao empregador o dever de assegurar condições de segurança e saúde em
todos os aspetos relacionados com o trabalho, através da identificação,
avaliação e prevenção dos riscos profissionais, conforme decorre expressamente
do Artigo 15.º do referido diploma, que obriga à redução dos riscos
psicossociais e à adaptação do trabalho ao homem.
Este dever de prevenção assume particular relevância perante os
riscos associados às atuais formas de organização do trabalho, incluindo os
riscos de natureza psicossocial, cuja importância tem vindo a ganhar crescente
expressão no contexto da proteção da saúde mental dos trabalhadores.
É precisamente neste contexto que assume especial relevância o
burnout. Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como um fenómeno
ocupacional resultante de stress crónico no trabalho que não foi gerido com
sucesso, caracteriza-se por um estado de exaustão física e emocional,
acompanhado por sentimentos de distanciamento em relação ao trabalho e redução
da eficácia profissional.
Embora o burnout não disponha ainda de uma definição autónoma no
Direito do Trabalho português, isso não significa que seja juridicamente
irrelevante. Sempre que a organização do trabalho, a sobrecarga laboral, a
ausência de períodos adequados de descanso, a pressão constante, a falta de
reconhecimento ou modelos de liderança inadequados contribuam para o
desenvolvimento deste fenómeno, poderá estar em causa o incumprimento dos
deveres legais do empregador em matéria de segurança e saúde no trabalho.
Neste domínio assume igualmente particular importância a Lei n.º
83/2021, de 6 de setembro, que reforçou a proteção da conciliação entre a vida
profissional e pessoal, designadamente através da consagração do dever de o
empregador se abster de contactar o trabalhador durante os seus períodos de
descanso, salvo situações de força maior previstas na lei (artigo 199.º-A do
Código do Trabalho, aditado pela Lei n.º 83/2021). Este enquadramento
legislativo evidencia a importância atribuída ao descanso, à desconexão e à
organização equilibrada do tempo de trabalho enquanto instrumentos de proteção
da saúde dos trabalhadores.
A prevenção do burnout exige, por isso, uma abordagem integrada,
que passa pela avaliação dos riscos psicossociais, pela organização equilibrada
do trabalho, pela promoção de lideranças saudáveis, pelo reconhecimento dos
trabalhadores, pela valorização do propósito e pelo respeito pelos tempos de
descanso e pela conciliação entre a vida profissional e pessoal.
A mensagem deixada pelo estudo “Happiness Works 2026” é clara: a
felicidade no trabalho deixou de ser um benefício acessório para se afirmar
como um verdadeiro fator de competitividade e sustentabilidade das
organizações. Sob a perspetiva jurídica, esta evolução traduz-se numa crescente
valorização dos deveres de proteção da saúde física e mental dos trabalhadores,
impondo às empresas uma atuação cada vez mais preventiva.
À medida que o verão chega ao fim e as organizações retomam
plenamente a sua atividade, talvez este seja o momento oportuno para repensar a
forma como o trabalho é organizado. Sob a perspetiva jurídica, esta evolução
traduz-se numa crescente valorização dos deveres de prevenção ativa por parte
das empresas, sinalizando que a saúde mental já não é uma escolha ética, mas
sim uma imposição legal. Deste modo, a felicidade organizacional e a prevenção
do burnout surgem como duas faces da mesma moeda. As organizações que
insistirem em modelos de desgaste arriscam não só sanções jurídicas e a
intervenção da autoridade inspetiva, mas também a perda de competitividade num
mercado que valoriza cada vez mais o capital humano. Promover o bem-estar
deixou de ser uma política de cortesia dos Recursos Humanos; é, hoje, o único
caminho sustentável para a eficácia empresarial e para o cumprimento pleno do
Direito do Trabalho.
A felicidade no trabalho não se constrói através de iniciativas
pontuais, sessões de bem-estar ou benefícios destinados a tornar o ambiente
profissional mais apelativo. Também não pode ser apresentada como uma
responsabilidade exclusivamente individual, como se coubesse ao trabalhador gerir
sozinho o stress, estabelecer limites ou evitar o burnout. A felicidade — ou,
pelo menos, a possibilidade de trabalhar num ambiente saudável — depende, em
larga medida, das condições em que o trabalho é organizado.
É aqui que a dimensão jurídica assume particular relevância. Se
o empregador tem o dever de proteger a saúde e a segurança dos trabalhadores e
de prevenir os riscos profissionais, então a prevenção do burnout não pode ser
tratada como uma questão meramente opcional ou como uma preocupação secundária
de gestão. Não se trata de garantir que todos os trabalhadores são felizes.
Trata-se de assegurar que ninguém adoece porque a forma como o trabalho está
organizado tornou o desgaste inevitável.
Todos nós conhecemos alguém que passou por isso. Alguém que
começou por levar trabalho para casa, que deixou de conseguir desligar o
telemóvel, que passou a viver cansado, que perdeu a motivação ou que,
simplesmente, chegou a um ponto em que já não conseguia continuar. Muitas
vezes, só reconhecemos a gravidade da situação quando o corpo ou a mente
obrigam a parar.
Talvez seja precisamente por isso que a prevenção tenha de
começar antes do colapso.
Agora que setembro marca a retoma do ritmo habitual e a
redefinição de objetivos, prazos e prioridades, importa também perguntar: que
tipo de organizações queremos construir e, sobretudo, a que custo queremos ser
produtivos?
Porque uma organização verdadeiramente sustentável não é aquela
que consegue extrair mais dos seus trabalhadores, mas aquela que consegue
alcançar bons resultados sem comprometer a saúde de quem os torna possíveis.
A felicidade no trabalho pode continuar a ser uma estratégia
empresarial. Mas prevenir o sofrimento, o desgaste e o burnout não é uma
questão de felicidade: é uma questão de responsabilidade. E, cada vez mais,
também de responsabilidade jurídica.


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